Thanatos, o Filho da Noite

Hoje é Dia de Finados. Dia dos Mortos. E eu tenho uma pergunta: você já falou sobre morte com os seus filhos?

Deixa eu quero dividir uma experiência diferente com vocês. Nas últimas férias de julho, fomos passar uma semana em São João del Rei, cidade histórica de MG que faz parte da Estrada Real e fica a 200 km de Belo Horizonte. Eu tenho uma filha de 8 anos e um filho de 5.

Fizemos todos os passeios tradicionais: Maria Fumaça, Centro Histórico, Tiradentes e Bichinho, comidas típicas e, por último, meus filhos me pediram para visitar um… cemitério. Isso mesmo, minha gente, um C-E-M-I-T-É-R-I-O. Eu jamais imaginaria que, em um belo dia da minha vida de mãe, eu levaria meus filhos para fazer um passeio em um lugar desse. Valeu Maurício de Souza! Valeu Turma do Penadinho!

Confesso que não me senti nem um pouco confortável, a princípio. Na Grécia Antiga, o nome de Thanatos, a Morte, era raramente pronunciado. Acreditava-se que era uma ideia desagradável e acordaria esse espírito, trazendo a destruição aos humanos. Como podemos ver, o tabu que envolve a morte é antigo… Fiquei pensando: e se a gente tratasse a morte com mais naturalidade? Afinal, ela é certa e evitar o assunto não faz com que ele não exista. E se a gente tratasse a morte com leveza? Afinal, a morte faz parte da vida. E se a gente falasse desde cedo sobre a morte, teríamos menos tabu com o assunto? Afinal, a qualquer momento ela pode chegar para qualquer um.

Organizei meus pensamentos e fui. Entrei no cemitério cheia de incertezas e com uma única certeza: empoderar meus filhos e dar a eles ferramentas que pudessem levar para a vida toda. Pisamos no cemitério e começou a chuva de perguntas:

– O que é esse asterisco e essa cruz?

– Ano de nascimento e morte.

– Ata. Nossa, esse aqui morreu bem velhinho, hein? E essa aqui também! OLHA MÃE! ESSE AQUI MORREU NO NATAL! ISSO PODE?

– Pode. A gente não escolhe o dia que vai morrer…

– Mãe, piorou: ESSE AQUI MORREU NO DIA DO PRÓPRIO ANIVERSÁRIO! PODE???

– Parece estranho filha, mas pode. A gente não escolhe o dia que vai morrer…

– Mãe, ô mãe… bebê também morre?

– Filho, morre sim. Infelizmente. É por isso que temos tanto cuidado com os bebezinhos! Eles são frágeis…

– Olha esse nome aqui mãe: parece de outro país!!! Você pode morrer fora do país que você nasceu?

– Pode… a gente não escolhe nem o dia e nem o lugar que vai morrer…

De repente, me dei conta da amplitude daquele passeio, das dúvidas que passam na cabecinha das crianças, nos assuntos que não tive a chance de perguntar para meus pais quando eu era pequena e em como eu tive que construir alguns conhecimentos de mundo sozinha.

Quando nós chegamos a uma parte onde as lápides eram quadradinhos na parede o bicho pegou:

– Mãe, mas COMO cabe alguém aí?

– Bem… aí fica a caixa de ossos.

– Tipo, a gente se desmonta como um quebra-cabeça?

– Hum, hum. E é isso meus filhos.

Naquele momento, nada mais precisou ser dito. De repente minha filha segurou minha mão, meu filho me abraçou… e nós ficamos ali, apreciando a beleza da morte. A morte nos faz lembrar que ainda há muita vida a ser vivida. Até o fim. E a beleza da vida está aí, justamente na caminhada, no dia-a-dia, no beijo de bom dia, no cafuné para dormir, no almoço de domingo, no olhar que encontra apoio, no abraço que tem conforto… enfim, a beleza da vida não está naquilo que a gente junta e sim no amor que a gente espalha.

Depois dessa experiência, falamos sobre o Filho da Noite, Thanatos, com mais naturalidade, leveza e respeito aqui em casa.

 

Eu, o tricô e minha mãe

A vida moderna anda caótica. Trânsito, horário, agenda cheia, trabalho e família, quem se identifica levanta a mão! Em meio a esse caos, eu descobri o tricô.

O tricô é uma grande metáfora da vida: você começa com um fiozinho, vai tecendo e dando rumo. Oras fica torto; você vai lá e desfaz o que deu errado e refaz com mais capricho para dar certo. Ou não. Deixa assim mesmo. Oras fica lindo, você pega o jeito e segue tecendo se sentindo no caminho correto.

Minha mãe me ensinou tricô quando eu era pequena. Durante muitos anos, eu deixei as agulhas de lado. No início deste ano, resolvi retomar e fazer um cachecol mara para usar no inverno. Escolhi a cor e o ponto que usaria.

Eu tecia um pouquinho por semana. Pouquinho mesmo. Esse era meu ritmo. Mas… para minha mãe o ritmo estava errado. O cachecol não ficaria pronto a tempo do inverno. O ponto estava frouxo. Ia ficar torto. Minha mãe estava realmente preocupada.

Volta à metáfora da vida: qual pai ou mãe não se preocupa com o rumo da vida dos filhos? Qual pai ou mãe não acha que SABE o caminho certo para os filhos? Qual pai ou mãe não (cof cof) intromete na vida dos filhos?

E foi assim comigo. Minha mãezinha meteu a mão no meu tricô. Um belo dia, cheguei em casa e o cachecol estava todinho pronto. Ela estava aliviada, afinal eu teria o bendito cachecol para usar no inverno, com um ponto firme e sem buracos. Minha mãe estava feliz. Eu não.

Sem perceber e, com muito amor no coração, minha mãe pegou para ela o fio da minha vida e tentou resolver o problema. O problema que era m-e-u. Para mim, o mais interessante era o processo de fazer o cachecol. Para ela, o mais interessante era ver o cachecol pronto.

E é aí que eu saio do papel de filha e volto para o papel de mãe: quantas vezes eu me preocupo, tenho certeza que sei a resposta e intrometo na vida dos meus filhos? Quantas vezes eu ofereço o produto e atropelo o processo? Eu sei respeitar o tricô dos meus filhos?

Eu fiz outro cachecol para mim. E ele passou a simbolizar muito mais do que um simples adorno: agora ele simboliza as minhas escolhas e o respeito que elas merecem. Ele simboliza as escolhas dos meus filhos. E o respeito que elas merecem. Cada um tem um caminho. Torto ou reto. Cada caminhada é única e a beleza está justamente na singularidade!

*Reflitamos*

Carta aberta: Dia dos Pais

Mãe,

Esta carta é para você. Preciso lhe falar ao coração.

Hoje, adulta, eu penso umas coisas cá comigo. Eu nunca senti o sabor da comida do meu pai. E acho que nem ele. Você sempre nos presenteou com os seus dons culinários e, sem querer, não deixou espaço para o papai cozinhar. Nem espaço para eu entender que homem também cozinha.

Eu não sei qual estilo de roupa meu pai achava que combinava comigo. E acho que nem ele. Você, sempre preocupada com o orçamento familiar, dava um jeitinho do dinheiro render e comprar várias peças de vestuário. Papai, também preocupado com o mesmo orçamento, trabalhava de sol a sol e deixava essas coisas para você. Essas coisas, que deveriam ser coisas de vocês dois.

Eu não sei como seria negociar minha primeira viagem sozinha com o meu pai. E acho que nem ele. Você, na ânsia de que tudo desse certo e ninguém saísse ferido, fazia a medição para nós dois. Enquanto você pensava que construía uma ponte entre eu e meu pai, na verdade estava construindo um muro.

Mãezinha, sei que tudo isso foi por amor e o amor é a melhor linguagem para se ensinar alguma coisa. Mesmo que a coisa ensinada, saia meia torta. Homem cozinha sim, compra roupa para o filho sim e, principalmente, dialoga com a família.

Veja bem, aprendi. Mas aprendi do meu jeito: hoje, se o pai dos meus filhos der miojo na janta, vou fazer o quê? Respeitar. Hoje, se o pai dos meus filhos resolver vesti-los descoordenadamente em relação ao meu gosto, vou fazer o quê? Respeitar. Hoje, se os meus filhos precisarem conversar com o pai deles, vou fazer o quê? Abrir a porta para eles seguirem caminho. É assim que a gente constrói uma relação rica e saudável. É assim que o pai participa: tendo espaço para ser pai.

Por isso, mãe, te agradeço. Hoje sei qual relação desejo que meus filhos construam com o pai deles. E, que no domingo, a saudação “Feliz Dia dos Pais” realmente represente algo para eles.

 

 

 

 

 

 

SÚPLICAS DE UM AVÔ ( serve para avó também )

“Primeiro: nunca me afaste dos meus netos.

A distância suportável é aquela do alcance dos olhos ou, no máximo, aquela que me permite em poucos minutos – mas pouquíssimos mesmo – estreitá-los nos meus braços.

Segundo: nunca os corrija na minha presença.

Nós, avós, acumulamos uma experiência que nos permite, hoje, arrepender por ter feito isto na presença dos nossos pais. É doloroso ver meus netinhos impedidos de um brinquedo, de uma vontade, olhando, obediente, os outros brincarem. Nosso coração chora.

Terceiro: se eles chorarem querendo o avô, não os contrarie.

Na verdade, eles nem precisam chorar, dá para perceber a vontade deles.A qualquer hora nós os acolheremos, seja participando de suas brincadeiras, seja acolhendo-os na nossa cama, brincando de cabana, fazendo guerra de travesseiros e, por fim, velando o soninho recompensador deles.

Quarto: nunca infrinja um castigo físico aos meus anjinhos.

A eventual mordida, o eventual tapa, o puxar de cabelos é uma reação a um estímulo. Vamos descobrir este estímulo. Meus netos não fazem isto por maldade ( lembrem-se que são anjos ), o coração deles é de amor.

Quinto: tenham paciência se eles demoram a dormir.

Dormir é bom para nós adultos que vivemos num mundo atribulado e o sono nos proporciona energia para enfrentar o dia-a-dia seguinte. O mundo dos meus netos é de faz-de-conta; é muito melhor ficar acordado. Me entreguem eles quando sentirem que a paciência começa a acabar; vou contar estórias lindas para eles (ser avó incorpora uma grande capacidade de contador de estórias).

Sexto: não cobrem deles atitude de adultos.

Não sei porque os pais acham bonito o filhinho ter postura de adulto.

Criança é criança e é bom que eles aproveitem cada minuto desta criancice. Eles não pensam como os adultos (menos os avós), a cabecinha deles é de sonhos, não está conspurcada pelos conceitos modernos disto ou daquilo. Eles são puros e agem segundo esta pureza.

Sétimo: deixem o avô amar eles incondicionalmente.

Não sabia, até tê-los, que nada no mundo é melhor que a existência dos meus netos. Se me emociono, podem ter certeza, o principal motivo é a travessura que eles fizeram, é a tirada inesperada em uma situação, é o sucesso em montar um brinquedinho ou resposta a uma pergunta mais difícil, é o neologismo abundante no seu falar todo próprio, enfim, é a simples lembrança deles.

Não os estrago, tempero as atitudes dos adultos na receita de uma futura lembrança boa da infância que tiveram (agora entendo a saudade que tenho da única avó que conheci, e por pouquíssimo tempo).

Amá-los e tê-los próximos é a principal razão da minha vida.

Por fim, não pensem que me coloco na situação de que, nós avós, sabemos de tudo. Não, não sabemos, se soubéssemos seríamos avós muito mais cedo.

( inspirado na imensa saudade do Deco e da Fefê, na peraltice do Peto e no sorriso constante do Lobi ).

Há 4 anos recebi esse texto do meu pai… e não há dia melhor para compartilhar. Feliz Dia dos Avós!
Mariana Bicalho

Cabeça-quebra no quebra-cabeça

Toda vez que meus filhos ganham um quebra-cabeças, lá vou eu para o sofá observar e monitorar a brincadeira. É um tal de pecinhas que entram embaixo dos móveis, pecinhas que a nossa gata cisma em brincar e levar com ela, pecinhas que encaixam e desencaixam e, claro, mãozinhas a mil por hora.

Outro dia eu estava cumprindo meu papel de fiscal de pecinhas, quando me deparei com os dedos gordinhos e ansiosos do meu caçula a procurar o encaixe certo e, meu primeiro instinto, foi mostrar a ele a resposta. Já meu segundo instinto, foi me segurar. E, nessa hora, um mundo de coisas começou a passar na minha cabeça. Não é à toa o nome dessa brincadeira…

Dizem que o objetivo final do quebra-cabeça é unir peças adequadamente, de forma a compor uma imagem. Para mim, o objetivo vai muito além: ele está no processo. A tentativa e o erro é a parte mais bela do aprendizado. Você tenta aqui e não dá certo, tenta acolá e consegue, pára, respira, analisa as possibilidades, escolhe um caminho e vai.

E, se no lugar de quebra-cabeças, a gente colocasse a palavra… VIDA? Fiquei pensando em quantas vezes eu dei a solução aos meus filhos, ao invés de privilegiar o processo individual de busca a uma resposta. É bem mais fácil para mim dar a eles o caminho seguro, do que deixá-los descobrir um caminho próprio. É bem mais fácil gastar vinte minutos montando um quebra-cabeças com eles, do que deixar aquele brinquedo semi-montado no meio da minha sala por uma ou duas noites. Arregalei os olhos. Mas eu pensei que estava fazendo tudo tão certinho!

Foi por causa daquele quebra-cabeça no meio da sala que comecei a fazer esta reflexão. Quais são as ferramentas que eu estou ensinando aos meus filhos para enfrentar os próprios desafios? Qual o melhor caminho para prepará-los a ter responsabilidade pelas próprias escolhas? Como faz? Tem manual?

A voz deles me chamou à realidade:

– Mãããããe, onde vai essa peça aqui, ó? Eu não acho! Me ajuda?

O encaixe estava logo ali. Bastava só mais um tiquinho de observação. Ai meo deos, segura a minha mão porque quero criar filhos para o mundo:

– Tenta de novo, filho. Tente em outros lugares, tente de novo e de novo. Tenho certeza que você vai achar. Eu estou aqui.

*Suspiros*
Meu e dele.

E os dedinhos gordinhos continuaram e logo acharam um encaixe, e mais outro, e outro… e a imagem foi tomando forma no chão. E foi tomando forma na minha mente também. Não é sobre dar a resposta. É sobre dar o amor e o suporte necessários.

É por isso que, agora quando ouço a pergunta “onde coloco esta peça, mãe?”, eu olho nos olhos e digo: vai tentando do seu jeito que uma hora você consegue. A mamãe vai estar sempre aqui te olhando.

Por Malu Pedrosa do Mama Sapiens

Cabelo cresce e autonomia também

Cabelos tem forte significado na mitologia. Medusa recebeu como punição da deusa Atena ter os belos cabelos transformados em serpentes. Afrodite cobria sua nudez com seus cabelos loiros. A deusa Ísis podia proteger ou devolver à vida usando seu cabelo. Cabelo era poder. E é até hoje.

Outro dia, levei meus filhos para apararem a cabeleira. No carro, deixamos tudo combinado: Bernardo com o seu corte surfista de sempre e Clarice tirando as pontinhas de sempre. De sempre. Zona de conforto. Ao sairmos do carro, minha filha me olha e diz: mãe, estou com uma vontade cortar meu cabelo aqui ó. Esse aqui ó era acima do ombro. Eu, adulta, mãe e dona da situação, nem dei bola para aquele desejo pueril e disse: ah tá, mas você só vai cortar as pontinhas, né? Olha isso, gente. Ignorei mesmo. Acho o cabelo dela maravilhoso, longo, com leves ondulações, faço penteados mil!

Chegamos ao salão e eu estava mega apertada para fazer number one. Deixei cada filho com um cabeleireiro e fui atender ao chamado da natureza. A porta do banheiro emperrou e eu gastei mais tempo do que o esperado. Era o universo me trolando. Ao sair do banheiro… metade daquele lindo cabelo já estava no chão. Tentei conter meu pavor e manter um sorriso no rosto. E a tesoura da cabeleireira estava frenética. E eu estava arrasada. E a tesoura não parava. E eu tentava manter um sorriso na cara. Cada tesourada era um puta que pariu que eu pensava. Eu era Sansão traído por Dalila.

Foi então que resolvi olhar para minha filha. Ela estava radiante. A cada tesourada o sorriso dela alargava. Os olhos brilhavam. Ela estava se descobrindo com um novo visual, um novo estilo, uma nova fase. O cabelo era dela. A escolha foi dela. Era o direito dela. E eu continuava ali, imóvel, com cara de cera, com vontade de dar na cara da cabeleireira. Então respirei. Cabelo cresce. E olhei para minha filha novamente. Desta vez, olhei para uma pessoa. Sim, às vezes esqueço que meus filhos são seres humanos com vontade própria e que gostam de ser respeitados.

Comecei a viajar naquele tapete de cabelo no chão… Até onde vai o direito de interferência dos pais no direito de escolha dos filhos? Por que eu estava tão arrasada se o cabelo era dela? Se cabelo tem forte significado na mitologia, passou a ter forte significado para mim também. Naquele dia, aprendi sobre escolhas e respeito. Os mitos estão aí para explicar coisas complexas. Filhos estão aí para deixar a vida mais complexa ainda. Pensei em Berenice, mulher de Ptolomeu, que ofereceu sua cabeleira a Afrodite para que o marido voltasse da guerra. A cabeleira desapareceu do templo e um astrônomo da época sugeriu que ela havia se transformado em uma constelação. Hoje olho para o céu, procuro a Cabeleira de Berenice e o que encontro é uma mãe, que em sua pequeneza, quer transformar os filhos em grandes seres humanos.

Texto de Maria Luiza Pedrosa do Mama Sapiens